"Relações entre filhos e pais: Cuidados, Dependência e Delinquência" Comentários (6)
02/04/2015

Demerval Florncio da Rocha

At uma certa idade, a criana, mais que outros filhotes, tem muitas auto-limitaes para garantir sua prpria sobrevivncia; por isso seu relacionamento com os pais de uma dependncia mais estreita que o observado em muitas outras espcies do reino animal. Conforme a histria de vida dos pais e os motivos emocionais que determinam seu comportamento, esses pais podem tambm manifestar ou ocultar a necessidade que sentem de manter os filhos muito ligados a eles – assim, muitos pais so tambm psicologicamente dependentes dos filhos. Dentre as vrias maneiras de se verificar o grau de dependncia que os filhos tm dos pais e vice-versa, dois mtodos so mais conhecidos: um deles se refere aos testes psicolgicos utilizados para "medir" comportamentos; o outro o mtodo fenomenolgico/compreensivista, que consiste simplesmente em observar atentamente o convvio entre pais e filhos ou perguntar, por exemplo, me como ela se sente quando est perto, junto ou longe da(o) filha(o), e fazer perguntas para os filhos em relao presena dos pais.

Dependncia um estado de esprito onde o desejo excessivo de um indivduo ser cuidado, auxiliado, beneficiado, confortado, apreciado e protegido por outro se transforma em necessidade psicolgica de o mesmo indivduo ser abordado desta forma pelo outro, visando estar emocionalmente prximo do outro ou ser aceito e at mesmo preferido pelo outro.

preciso que os pais conheam que os cuidados prestados ao filho podem fazer com que o(a) filho(a) torne-se muito dependente dos pais. No propriamente no cuidado oferecido que pode estar a complicao, mas na forma e na intensidade com que tais cuidados so oferecidos. Outras vezes a falta desses cuidados que torna a criana ainda mais dependente dos pais. Assim, por exemplo, o choro no atendido, negligenciado pela me, refora as relaes de dependncia, pois a criana tender a chorar cada vez mais ou passar a executar determinados atos apenas na presena da me ou do pai, tal como comer, fazer xixi etc.

Parece que a forma mais eficaz de se promover a independncia de uma criana estimular seu desenvolvimento neuropsicomotor (dnpm), ou seja, estimular a evoluo de suas habilidades para executar funes cada vez mais complexas. So funes que vo permitir criana suprir suas prprias necessidades fsicas, integrar-se ao meio ambiente e explor-lo, aprender coisas diferentes a cada dia e se relacionar com as pessoas de forma positiva e construtiva. Os primeiros meses de vida da criana so os mais importantes para que ela adquira essas habilidades. Quem cuida do beb tem, portanto, a responsabilidade de lhe fornecer os estmulos, que consistem em gestos e posturas simples perante a criana, tais como balbuciar ("ingrisar"), gesticular com as vrias partes do corpo, fazer fisionomias que representem diversos sentimentos ("caras e bocas" – mmica facial), tocar a pele com diferentes objetos e intensidades, provocar diversos tipos de rudos, cheiros etc. Assim, estaremos estimulando os cinco sentidos da criana, incluindo o paladar, quando oferecemos alimentos de diversos sabores. Quando a pessoa que cuida de uma criana deprimida, aptica ou inibida, esta pessoa deixa de oferecer estmulos adequados ao desenvolvimento e, assim, a criana no desenvolve sua independncia, pois no desenvolve direito suas capacidades. sobretudo nos primeiros dois anos de vida que a criana tem o maior potencial para construir sua independncia, para construir a capacidade de dar conta do prprio recado, a capacidade de sobreviver por conta prpria. Nesse perodo as clulas do sistema nervoso esto em rpido processo de amadurecimento (mielinizao) e por isso mesmo esto muito receptivas e sensveis aos estmulos externos. Temos que aproveitar essa fase para estimular ao mximo os neurnios. Sero bem recompensados os esforos que fizermos at os 2 anos para estimular o desenvolvimento neurolgico e psicolgico da criana. Doutro modo, a negligncia, o desinteresse e o descuido nessa etapa da vida podero ter efeitos catastrficos para o futuro desenvolvimento da criana. Assim tambm, alguns excessos e exageros nesse cuidado podero atrapalhar a evoluo da criana e fazer dela um ser totalmente dependente dos pais. Estamos falando da superproteo, a atitude reprovvel de fazer tudo pelo beb, atender a todos os desejos e caprichos da criana antes mesmo que ela os manifeste ("adivinhar" suas necessidades), deixar de repreend-la quando ela cometer suas faltas ou repreender e reprimir excessiva e indevidamente a criana quando ela est, por exemplo, manifestando seus sentimentos de contrariedade, desacordo, de perda etc.

Sabemos que a ligao com a me o que gera maior gratificao (recompensa, satisfao) das necessidades da criana, principalmente nos primeiros meses. Porm, gratificao em excesso induz dependncia na criana. Essa dependncia d-se no apenas em relao aos familiares ou a quem cuida da criana, mas at mesmo em relao a qualquer pessoa do convvio da criana, pois ela pode passar a esperar dos outros tudo aquilo que recebia de quem a cuidava. Algumas atitudes de cobrana e controle muito precoces para com a criana podem fazer efeito contrrio do esperado. Um exemplo o controle de esfncteres (tirar a fralda para fazer xixi e coc no sanitrio ou no penico). Isso pode deixar a criana insegura. E insegurana significa perda de autonomia, ou seja, falta de independncia. Da mesma forma, a cobrana muito rgida de horrios para mamar, dormir, acordar, tomar banho etc. no deve comear muito cedo. Devemos estabelecer rotinas, mas com alguma flexibilidade e sem obsesso.

A troca afetiva entre pais e filhos no gera dependncia e sim autonomia emocional, portanto capaz de reduzir os ndices de delinqncia. Amamentar um ato que prov muitas trocas afetivas entre me e rebento; afeto gera segurana, esta reduz a dependncia. Para Viorst (1988) a maior parte da jornada rumo nossa independncia em relao aos pais acontece nos trs primeiros anos de vida. A ternura o ponto de equilbrio entre o excesso e a carncia, entre o protecionismo e a negligncia.

A ternura resulta da serenidade. O protecionismo inconsistente, ou seja, a alternncia de atitudes entre uma hora cuidar de mais e outra hora prover de menos, pode levar a criana delinqncia, pois quando o pai se irrita e no satisfaz a expectativa que gerou na criana, esta pode apelar para gestos delinqenciais a fim de superar a expectativa frustrada. A punio da dependncia afetiva da criana, logo seguida por recompensa, uma ambigidade que gera incertezas e torna a criana ainda mais insegura e menos independente. O que gera auto-confiana a regularidade nas manifestaes de receptividade, carinho e proteo terna por parte dos pais.

Muitos pais ficam em dvida do que seja pecar por excesso e pecar por falta. Esse dilema torna-se menor quando os pais conhecem um pouco sobre as fases do dnpm dos filhos, pois esse conhecimento os ajuda a agir na medida mais certa com relao s suas crianas. Assim, por exemplo, para deixar um beb na creche ou sair para o trabalho e deixar a filhinha chorando, com menos peso na conscincia, importante saber que at o nono ms de vida o lactente no domina a noo de espao-temporalidade. Trocando em midos, quando a me se afasta e sai pela porta, o beb, por no saber o tamanho do mundo atrs da porta, no sabe se a me foi longe ou foi perto (noo de espao); da mesma forma, como no tem noo de tempo, a criana nesta fase no sabe se o pai vai demorar muito ou pouco. Assim, no vai haver trauma na criana porque a me foi para seu trabalho na esquina ou foi para outra cidade; nesta fase o beb no ficar traumatizado se o pai se demorou alguns minutos ou algumas horas. Portanto, um bom perodo para os pais afrouxarem na criana alguns laos de dependncia, como, por exemplo, habituar a criana a uma escola maternal sem nenhum remorso.

Tambm no se iludam os pais de que a intensidade da ansiedade de separao na criana sempre mede com preciso o tamanho da ligao afetiva que o filho tem com eles. H crianas que ficam muito mais ansiosas quando se separam de uma pessoa com quem tem menos ligao afetiva ou que lhes prov menos afeto. Alis, esta ltima situao at mais comum, pois a criana que menos estimulada afetivamente fica mais tempo dependente de afeto. No raro, nos ambulatrios de pediatria, virmos crianas ferrenhamente grudadas a mes que satisfazem muito pouco as necessidades afetivas dos filhos. A dita Sndrome de Estocolmo uma boa comparao. Trata-se de uma situao de seqestro, em que a pessoa seqestrada acaba se apegando ao seqestrador; isso explicado pela necessidade de sobrevivncia, pois, para continuar recebendo os cuidados mnimos e se manter viva, a pessoa seqestrada instintivamente desenvolve sentimentos que vo da cordialidade at a empatia para com o seqestrador. Assim tambm acontece com crianas que sofrem negligncia ou maus tratos em casa. Ao contrrio, crianas que so adequadamente assistidas pelos pais em suas demandas afetivas, ns freqentemente as vemos leves e soltas brincando a uma boa distncia dos pais. Afora isso, talvez apenas a criana superprotegida desminta o que acabamos de dizer, pois superproteo equivale insegurana e dependncia. preciso tambm ter em conta que a gravidade da ansiedade de separao muitas vezes depende do nvel de desenvolvimento cognitivo da criana, que s vezes trata-se de uma condio neuropsicolgica inata, prpria da criana, de influncia mais gentica do que ambiental.

Os pais que geram independncia geralmente so do tipo calorosos, amorosos, tolerantes, conscienciosos, comunicativos com os filhos, e mais (Elias, 2001):

* sabem como esto se sentindo na maioria das ocasies

* compartilham regularmente seus sentimentos com os outros

* procuram compreender o ponto de vista dos outros, mesmo no meio de uma discusso

* tm uma atitude otimista e esperanosa

* acham tempo para rir com seus entes queridos

* controlam seu temperamento quando esto estressados

* sabem ouvir com ateno e reformular o que acaba de ser dito

* consideram vrias opinies para tomar uma deciso

* tm metas e planos para alcanar seus objetivos

* sabem fazer conexes com pessoas para ajudar a atender s necessidades de seus filhos.

Filhos independentes so competentes, realistas, auto-controlados, exploradores, afiliativos, assertivos, e muito mais (Elias, 2001):

* conhecem muitas palavras para descrever seus sentimentos

* falam com facilidade sobre suas emoes

* tm empatia e simpatia pelos outros * tm uma atitude otimista

* esperam pacientemente por algo que de fato desejam

* tm metas razoveis para a idade e algumas idias sobre como alcanar essas metas

* ouvem com ateno

* sabem do que precisam e como pedi-lo

* sabem resolver a maioria de seus problemas

* ficam vontade num grupo de crianas de sua idade.

Viorst (1988) resume as qualidades de um adulto emocionalmente saudvel, tendo sido ele treinado desde beb para adquirir segurana afetiva. Como adultos saudveis – diz a autora – sentimos nosso eu digno de ser amado, valioso, genuno. Sentimos a "individualidade" do nosso eu. Sentimos que somos nicos. E, ao invs de ver o eu como a vtima passiva do mundo interior e exterior, manejada, desamparada e fraca, reconhecemos o eu como agente responsvel e fora determinante da nossa vida. Como adultos saudveis, podemos integrar as vrias dimenses da nossa experincia humana, abandonando as simplificaes da juventude insensvel. Tolerando a ambivalncia. Vendo a vida atravs de vrias perspectivas. Descobrimos que o oposto de uma verdade importante pode ser outra verdade importante. E somos capazes de transformar fragmentos separados em um todo, aprendendo a ver os temas unificadores. Como adultos saudveis possumos, alm de uma conscincia e, claro, do sentimento de culpa, tambm a capacidade para sentir remorso e para perdoar a ns mesmos. Somos apenas refreados, no aleijados, pela nossa moralidade. As adaptaes construtivas e as defesas flexveis permitem que alcancemos objetivos importantes.

Manifestar dependncia pode gerar bastante ansiedade na criana, principalmente quanto reao de familiares. Essa ansiedade pode gerar mais dependncia, ou seja, obstrui a autonomia da criana, pois toda pessoa ansiosa est menos apta a decidir por si s. Como j dissemos anteriormente, essa gerao de dependncia pode ser consciente ou inconscientemente desejada pelo genitor e, desse modo, uma ou ambas as partes (filhos e pais) podero manipular uma outra, deixar-se manipular ou manipular-se mutuamente. A busca de ateno e de aprovao so formas relativamente maduras (socialmente adaptadas) de expressar dependncia, ao passo que os pedidos diretos e reiterados de afeio e o choro despropositado so modos imaturos de manifestar dependncia.

Outra forma de demonstrao imatura e doentia de dependncia a delinqncia -expresso de atitudes socialmente reprovadas por causarem dano proposital a outra pessoa ou a outros entes. Castro Neto (1995) d um exemplo seguido de um comentrio bastante elucidativo: "s vezes podemos constatar o fato de uma criana inteligente cometer um furto de modo tolo, sabendo, quase com certeza, que ser descoberta. A explicao para esta atitude que o castigo poder ser um meio de aliviar o mal-estar provocado por algum sentimento de culpa anterior ao furto, que a aflige no nvel do inconsciente, mas que lhe ignorado totalmente ao nvel consciente. Assim, fazer-se castigar uma maneira de se entrosar de novo com o mundo e consigo mesma, pelo menos provisoriamente.

A criana emocionalmente independente, ou seja, que est no rumo certo de uma maturidade psicolgica, sabe lidar melhor com as frustraes. J a criana dependente, afetivamente carente ou imatura para a idade, pode chegar agresso, que uma reao delinqencial predominante, seno inevitvel, frustrao. Eventos frustradores so os que bloqueiam o comportamento de buscar atingir os objetivos, que ameaam a auto-estima ou privam a criana da oportunidade de concretizar alguma inclinao da personalidade. As formas e graus de agresso que a criana exibir dependem de alguns fatores: intensidade interpretada de sua motivao hostil (frustrao), reforos recebidos pelo comportamento agressivo, observao e imitao de modelos agressivos e nvel de ansiedade/culpa associado expresso da agresso. de suma importncia destacar que a punio por parte dos pais, conforme a severidade e os meios para execut-la, pode acabar servindo de modelo agressivo para os filhos.

A criana agredida, estando assim em situao de impotncia e frustrao, pode se adequar a um processo de identificao com o agressor. Numa atitude que lembra o ditado "se no pode derrot-los, junte-se a eles", tentamos nos parecer com as pessoas que tememos e odiamos, na esperana de, assim, ganhar o mesmo poder e nos defendermos contra o perigo que representam.

A combinao de punio freqente + pouca permissividade ou pouca oportunidade para manifestar emoes e para executar comportamentos autnomos pode provocar auto-punio e tendncias suicidas, bem como timidez, retraimento social, dificuldades no relacionamento com companheiros e pouca confiana ou pouca motivao para assumir mais tarde os papis de adulto. Os estudos sugerem que a conjuno de restrio e hostilidade facilita o desenvolvimento de um ressentimento considervel que, em certa medida, voltado contra si prprio, mas geralmente vivido como turbulncia e conflitos internalizados (Mussen, 1977). O prejuzo maior do manuseio equivocado de crianas afetivamente dependentes recai sobre a auto-estima, ou seja, prejudica o julgamento pessoal de valor, expresso nas atitudes que a criana assume perante si prpria.

A maioria dos traos delinqenciais so de carter defensivo, refletindo auto-conceitos comprometidos, sentimentos de inadequao, sujeio emocional e frustrao das necessidades de auto-expresso. As crianas clara ou potencialmente delinqentes demonstram menos respeito equanimidade no trato com os demais, so menos amistosas, menos responsveis, mais impulsivas e antagnicas autoridade institucional ou familiar. So mais desleixadas nas tarefas, atuam em nvel inferior s suas possibilidades, necessitam mais superviso, so mais susceptveis distrao, tm menos capacidade de ateno, devaneiam mais e resistem mais quando academicamente desafiadas.

A criana que chega delinqncia, o faz porque, obviamente, no chegou a desenvolver uma personalidade capaz de comportamentos pr-sociais, no foi corretamente socializada. Isso porque no foi corretamente conduzida a conquistar sua independncia ou maturidade afetiva.

Personalidade se refere organizao total ou ao padro de caractersticas psquicas do indivduo – as formas de sentir, pensar e agir – reveladoras da peculiaridade de seus meios de relacionar-se com o ambiente e adaptar-se a ele ou modific-lo; diz respeito aos aspectos comportamentais do indivduo que so no apenas estveis como tambm reveladores de sua alteridade em comparao a qualquer outro ser.

A formao de uma personalidade socialmente construtiva se confunde com a prpria construo do Eu. Este inclui um componente perceptivo – quanto menos consistentes forem de si prprio as imagens, idias e modos de perceber, maior a dependncia dos outros – e um componente conceitual: a concepo que faz de suas caractersticas diferenciadoras, suas capacidades, recursos, qualidades, defeitos e limitaes, concepo de seus antecedentes e origens, futuro. Para ter uma identidade madura o indivduo precisa at mesmo analisar acerca de como foi sua criao no mbito familiar e por que foi criado de tal ou qual jeito, ou seja, ele precisa conceber a reflexo de sua prpria histria.

Estimular o desenvolvimento do Eu, da identidade da criana, promover sua independncia. O genitor hiper-transigente (que cede, d tudo que a criana quer), pensando em livrar-se o quanto antes de sua criana pegajosa, na verdade a est treinando para a dependncia. Ento fica claro que complacncia uma das formas de rejeio, pois est emperrando a autonomia e a auto-confiana do rebento. Observamos que muitos pais que so despreparados ou incompetentes para suprir as necessidades psquicas da criana, tornam-se excessivamente complacentes nas demandas fsicas e nos caprichos infantis.

As atitudes dos pais so o espelho para a criana moldar seu prprio Eu. A criana idealiza a figura dos pais. Estes no podem nem decepcionar totalmente a criana em sua idealizao nem hipocritamente foment-la, pois esta ltima situao (pai que finge ser a personalidade ideal) instiga na criana a sensao de um comportamento inatingvel e abre caminho para a delinqncia por reduzir sua auto-estima.

Estando a criana estimulada para formar-se uma identidade plena e uma personalidade independente, fica mais simples aos pais e educadores trabalhar com ela, desde cedo, a questo da disciplina. Disciplinamento qualquer espcie de influncia destinada a auxiliar a criana a aprender os meios de enfrentar as exigncias de seu ambiente, as quais vm contrariar as exigncias que a criana instintivamente gostaria de fazer a esse ambiente (Mussen, 1977). As exigncias instintivas geralmente coincidem com a "lei do menor esforo". Disciplinar no cercear liberdades, mas adequ-las aos momentos temporais e existenciais da criana. Se a criana tiver mais liberdades que capaz de administrar, provavelmente ver-se- em dificuldades. Uma criana no pode apreciar plenamente os frutos da liberdade se no renunciar a uma parte dela. Precisa aprender a inclinar-se ante alguns fatos da vida ou esgotar-se- numa resistncia pueril.

O castigo, enquanto mtodo de impor disciplina, quando extremamente necessrio, deve ser usado com algumas ressalvas: a) pode talvez dissuadir a criana de reincidir em determinado ato, mas no serve como corretivo, pois o que ela fez est feito; b) serve mais como proteo aos outros contra a agressividade da criana; c) deve ter um objetivo limitado e no ser reprimenda prolongada; d) deve ser imediato e no um ajuste de contas depois da elaborao de uma longa lista de faltas e acusaes; e) no deve ser expresso de sarcasmo, menosprezo, censura constante e sinal de contnua desaprovao.

Da parte do adulto recomendvel algum exerccio de tolerncia para com muitas das travessuras e altercaes das crianas. Devemos saber que resistncia e teimosia nas relaes com os mais velhos so esperadas a partir dos 18 meses de vida e mais intensamente na faixa dos 4 anos. Nessas etapas a criana amplia bastante seu campo fenomenal, quer dizer, adquire maior compreenso sobre seres, fenmenos, conceitos e situaes. Fisicamente isto se d pelo desenvolvimento da motricidade (caminhar, correr, danar) e intelectualmente pela aquisio e compreenso de linguagem verbal. Mas, se j soubesse conversar fluentemente, haveria poucas contendas nesta fase. Todavia, cada vez mais fcil de ser socializada.

Socializao o processo pelo qual o indivduo adquire padres de comportamento, crenas, normas e motivos (necessidades) que so valorizados por seu grupo scio-cultural-familiar e adequados ao prprio indivduo.

A culpa perante transgresses freqentemente usada como um ndice de desenvolvimento da conscincia e da internalizao dos padres de moralidade. Para se promover um alto nvel de conscincia pr-social necessrio: a) manter relacionamentos estreitos e afetuosos com a criana; b) usar tcnicas educativas capazes de provocar na criana sentimentos desagradveis como resultado de pequenas infraes, independentemente de ameaa externa; c) demonstrao de desgosto no sentimento dos pais. Ameaa, fora e punio fsica no gera conscincia, mas delinqncia, principalmente se no houver um histrico de estreita relao afetiva entre criana e cuidador/educador.

Vrios autores ressaltam o que j vimos dizendo ao longo deste texto: que o desenvolvimento da conscincia – manifesto por reaes internas transgresso na forma de culpa ou pela adoo de padres morais por cuja manuteno a criana sente-se responsvel – auxiliado pela presena de calor e amor parental (Jersild, 1981; Savater, 2002). Isto soa razovel em relao a dois mecanismos que parecem estar envolvidos no desenvolvimento da conscincia: identificao e medo de perder o amor ou a aprovao.

Pesquisas indicam que, da parte do pai, a negligncia ou ausncia de cuidados criana levam esta a manifestar mais ansiedade e depresso. J se a negligenciadora ou ausente for a me, isso um fator preditor mais forte de futura delinqncia juvenil (Feij & Assis, 2002). A criana educada sem um dos pais tem mais dificuldade em construir segurana emocional. Quando ambos esto disponveis mais seguro para a criana demonstrar, por exemplo, que est zangada com um deles; pode odiar sem ser abandonada; pode odiar e continuar amando e ser amada. Quando h s um genitor, a criana, muitas vezes inconscientemente, suprime sentimentos adversos em relao ao genitor presente, pois se os extravasar poder achar que corre o risco de ficar desamparada.

Os vnculos dos pais com os filhos so os mais poderosos em operar mudanas positivas de conduta e percepo emocional na prole; muito mais que qualquer relao teraputica ou atuao de autoridade institucional.

REFERNCIAS E SUGESTES BIBLIOGRFICAS

1 – CASTRO NETO, A. Crianas que furtam. Pediatria atual, vol 8, n 8, p 36-38, agosto/1995.

2 – ELIAS, M. J. et al. A adolescncia e a inteligncia emocional: como criar filhos com amor, bom humor e firmeza. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001.

3 – FEIJ, M.C. Me e beb: uma relao pr-natal. Rio de Janeiro: Grupo Palestra/ nthropos, 1997

4 - FEIJ, M.C. & ASSIS, S.G. O contexto de excluso social e de vulnerabilidades de jovens infratores e de suas famlias. No publicado, 2002.

5 – GOTTMAN, J. Inteligncia emocional e a arte de educar nossos filhos. 10 ed. Rio de Janeiro: Objetiva, 1997.

6 – JERSILD, A. T. Psicologia da criana. Belo Horizonte: Itatiaia, 1981.

7 – MUSSEN, P. H. et al. Desenvolvimento e personalidade da criana. 4 ed. So Paulo: Harbra, 1977.

8 – SAVATER, F. tica para meu filho. 2 ed. So Paulo: Martins Fontes, 2002. 9 – VIORST, J. Perdas necessrias. So Paulo: Melhoramentos, 1988.

 

 
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